guitarra ZEN

Aqui você encontra alguns textos clássicos da série Guitarra ZEN, escritos entre 2001 e 2008. 

 

 

Decepção, guitarras e por que toda a unanimidade é burra

 

"Use sua guitarra de maneira inteligente, e se houver limites, não os recuse.

Trabalhe dentro de suas limitações. Algumas coisas você com certeza pode fazer melhor do que outras,

algumas coisas você não pode fazer tão bem.

Portanto, enfatize as primeiras, enfatize o positivo".

(Chet Atkins)

 

Dentro do universo da guitarra, às vezes somos cercados por um sentimento chamado decepção. Apesar de ser mais uma emoção do que qualquer outra coisa, podemos nos preparar melhor para enfrentá-lo.

 

A decepção acontece quando acreditamos em algo ou alguém a tal ponto que não podemos imaginar uma atitude que destoe da figura criada pelo seu inconsciente. Por exemplo, você pode ter um amigo(a) e realmente sente-se confortável com a relação. Instintivamente, tem dentro de seu coração que aquela pessoa vai responder dentro de certos parâmetros que você considera certo ou errado. Mas, de repente, este seu amigo ou amiga reage a determinado assunto de uma forma que o surpreende, deixando-o desnorteado. Questionando internamente seus valores, você acaba decepcionado com a pessoa, primeiramente sentindo-se traído, passando para um estágio de tristeza.

 

Você se decepcionou com esta pessoa porque achava que ela iria corresponder de uma maneira que, na verdade, não era a verdadeira personalidade dela. Sempre que achamos que algo ou alguém é realmente assim, podemos nos decepcionar. O ser humano é mutante, e como tal, tem dentro de si diversas formas e desenhos psicoemocionais que dificilmente são trazidos à tona integralmente.

 

Isso não quer dizer que você não deva confiar ou não mais ter esperança em algo ou alguém. Não. Acreditar sempre no ser humano é o melhor e o mais rápido caminho para uma auto-evolução mental, espiritual e pessoal. O fato de ficar decepcionado deve sugerir a você uma mudança de abordagem em sua vida. Outro exemplo: você prepara-se para um show, no qual sua banda vai estrear, com novos equipamentos, novas músicas e solos, enfim, tudo preparado para um grande evento. A hora do show chega e você parece estar mais nervoso do que o normal, em um grau muito mais elevado do que aquele "nervoso bom", aquela sensação gostosa de show ou performance ao vivo. Você acaba errando muito os solos, as partes, não toca como imaginou, enfim, parece que tudo foi uma droga. Você fica decepcionado. É claro que você acreditou em sua performance, mas será que você realmente estava tão bem preparado?

 

Já estive presente em estúdio onde estava esperando a vez para gravar e alguns nomes conhecidos do meio musical chegavam e tinham uma performance mediana, ou não tocavam tudo o que sabiam, por nervosismo ou tensão. Em outros casos, realmente o take foi excelente, mas o produtor ou o dono da gig não gostou, ficou desapontado, decepcionado. Ele tinha criado uma imagem, um som que talvez não correspondesse à realidade, pelo menos à realidade daquele momento. Devemos sempre ter em mente que podemos fazer o melhor, podemos superar nossos limites. O que devemos evitar é acreditar cegamente em algo ou alguém e depois ficarmos decepcionados por que ele não correspondeu com nossas expectativas.

 

Você nunca vai conseguir agradar a gregos e troianos, nunca vai conseguir unanimidade, 100% de crítica favorável ao seu trabalho. A unanimidade é, por princípio, burra e insensível. A unanimidade adora xingar, criticar e deteriorar o técnico da seleção brasileira, seja ele quem for. Mas basta que o Brasil seja campeão para assistirmos a verdadeiras palhaçadas ufanistas.

 

Não procure a unanimidade, não procure agradar a todos, não busque de qualquer maneira o sucesso. Deixe que ele venha até você. Faça música para você, para satisfazer seu coração, para atender suas necessidades. Acredite nas pessoas, mas não queira que elas sejam como você, não queira que elas façam ou reajam da maneira que você acha que é correta. Enfim, não se decepcione com o que não existe. Se o bend que você gravou foi um pouco mais para baixo ou para cima, se você tocou sem querer uma nota considerada “errada” (vamos falar mais sobre “notas erradas” no futuro...), se você não fez aquele improviso da maneira como tinha imaginado, tudo bem. A perfeição existe, só que dentro de você. Aprenda a distinguir e aceitar esse fato.

 

Você deve sempre buscar melhorar, conscientemente, mas deixe que as pessoas falem o que quiserem sobre seu trabalho. Aos que gostarem, agradeça, aos que não forem tocados por sua música, tudo bem, sempre irão existir vários níveis diferentes de sensibilidade e percepção. Sua música pode ser mais direta a ponto que pessoas muito sensíveis não se emocionem com ela. Ou sua música pode ser tão sensível e única que outras tantas pessoas que estão ainda longe deste grau de percepção simplesmente não irão absorvê-la, podem até mesmo nem compreendê-la.

 

Siga seu caminho, consciente de que está fazendo um bom trabalho. Fique sossegado, não fique decepcionado.

mente de principiante

 

Por quantas vezes nós negligenciamos os processos e as técnicas de estudar ou tocar um instrumento. Quer dizer, é preciso descobrir porque estamos tocando guitarra? Quando nos tornamos profissionais de um instrumento, as cobranças, o dia-a-dia, as responsabilidades assumidas e o próprio cenário do show bussines - seja ele gigantesco como o dos EUA ou pequeno e frágil como o brasileiro - nos fazem rapidamente esquecer o espírito que nos levou a começar a tocar e aprender um instrumento: o som, aquele primeiro som, tocado por você mesmo ou por algum outro guitarrista. Com certeza todos nós sabemos que som é este.

E como ele faz bem. 

 

Talvez alguns tenham começado a tocar para impressionar garotas; alguns provavelmente para imitar artistas conhecidos, ou apenas para ter mais uma diversão, uma válvula de escape para o tédio cotidiano. Mas a música não está aí. A verdadeira música, a verdadeira arte margeia estas e outras possibilidades para valorizar o que é realmente verdadeiro: o som, as infinitas possibilidades de criação musical, e, particularmente, a arte de tocar guitarra. 

 

Porém, passado o estágio inicial, muitas vezes caimos na perigosa armadilha de tocarmos os vícios, as técnicas e o lugar seguro, repetindo isso ad infinitum.

É comum passarmos duas horas que podiam ter sido usadas para criação ou aperfeiçoamento, apenas tocando apenas aquilo que já sabemos.

Ou seja, perdemos uma oportunidade rara de criarmos e aprendermos algo novo em música. 

 

Mas nem sempre foi assim. Mente de principiante é uma atitude importante porque revela uma faceta incrível da criação artística: quando começamos a tocar um instrumento musical, assim como quando estamos aprendendo a pintar um quadro, não possuimos ainda referências estilísticas, obrigações técnicas, vícios e repetições harmônicas, melódicas e rítmicas. De certa maneira, somos "puros", virgens, inocentes. E por isso arriscamos, pulamos o muro. Afinal, não existe para um iniciante o certo e o errado. O que temos a perder quando estamos aprendendo algo? Desafinar um instrumento montando acordes ou frases fora do lugar-comum, rabiscar totalmente um quadro em branco com as cores e figuras mais absurdas ou encher uma partitura vazia de notas que não seguem uma lógica teórica são práticas frequentes quando se é iniciante. Dá para perceber que incorporar esse espírito é um caminho, uma porta para a verdadeira criação, que não tem e nem tão pouco precisa de compromissos estéticos. 

 

Você se lembra da sensação que teve ao tocar uma guitarra de verdade pela primeira vez? Ao ligar o seu instrumento em um pedal de efeito e conseguir emular aqueles sons incríveis? Lembra-se do sentimento gerado ao entrar pela primeira vez no recinto mágico de um estúdio de gravação? Estas e outras sensações não podem se perder ao longo do desenvolvimento de nossa carreira. 

 

Portanto, fica aqui uma importante dica: resgate seu espírito e sua atitude de inciante. Como? Tente compor em um outro instrumento que não seja a guitarra, toque em um amplificador diferente, completamente sem efeito, seco e limpo. Além disso, utilize fórmulas de compasso fora do lugar comum e compre CDs de estilos musicais que não lhe são familiares. Busque enfim o novo, o ar fresco, o desafio. Não tenha medo de entrar de cabeça nesta imensa piscina musical em que vivemos atualmente. Afinal, o que você tem a perder? 

imitação não é arte 

 

Vivemos hoje sob uma verdadeira enxurrada de informação. Um simples web-site chega a possuir mais informação técnica do que qualquer aspirante à guitarrista tinha acesso há meros 20 anos. Temos livros, Blue-Rays, redes sociais, aplicativos, iPhones, iPads, coisas e mais coisas; sites em que você passa noites em claro em downloads de áudio, video, programas legais para percepção, notação, sequenciamento, gravação, partituras, enfim, informação em estado bruto. E ainda assim, com toda esta avalanche de palavras, sons e bytes, vemos e ouvimos centenas de músicos que preferem ir por um caminho mais fácil e aparentemente curto: a imitação, a cópia, o assalto criativo. 

 

Vamos ser sinceros. Quantos guitarristas exatamente iguais a Yngwie Malmsteen você já ouviu? Quantos imitando nota por nota as frases, tappings e alavancadas de Eddie Van Halen. Idênticos aos ligados de Joe Satriani, aos licks de Steve Vai, ao cromatismo de Mike Stern? Quantos preferem gastar horas tentando imitar seus ídolos, sendo que existe todo um oceano repleto de oportunidades novas e originais a serem descobertas. 

 

Não estou dizendo que não devemos ouvir e transcrever nossos ídolos. Pelo contrário. O exercício de transcrever solos e músicas, aprendendo literalmente com os discos é um dos maiores e mais eficientes artifícios para aprendermos. Mas isso não quer dizer que irei compor uma música exatamente igual a determinado artista. Ou copiar seus solos pedaço por pedaço. É preciso saber separar uma coisa da outra. 

 

Uma maneira de você desenvolver sua personalidade musical é, primeiro, ouvir atentamente muita música, de todos os estilos e tendências, reparando naquilo que lhe chama a atenção. E, depois, inverter e quebrar conceitos pré-estabelecidos. Todos admiram o som agudo, um pouco distorcido e cheio de chorus de John Scofield. Mas imagine-se sendo você o primeiro a fazer isto, tocando standards de jazz, verdadeiros clássicos, com aquele som. Ultrapassar conceitos, ignorar críticas, ver o caminho que a maioria ainda não está vendo, simplesmente seguir sua intuição. Foi assim que Scofield fez, e ainda faz até hoje. Assim foi o que fizeram Frank Gambale, ao mudar a maneira de palhetar escalas e modos com seu sweep; Wes Montgomery, ao colocar o polegar da mão direita em serviço de seus solos e grooves; Frank Zappa, com toda sua loucura e esquisitice musical; João Gilberto, idem; Miles Davis, Allan Holdsworth, Charlie Parker e Hermeto Pascoal, só para citar alguns nomes. 

 

Ligue o rádio ou programe CDs diferentes para ouvir; faça um playlist novo em seu iPod. Vá para a idéia mais generalizada possível, ao invés de ir direto em pequenas especificações. Quanto mais vasto seu repertório, melhor. Anote tudo o que chamar sua atenção no período de uma hora. Diferencie o simples clichê de algo realmente novo. Clichês são facilmente reconhecidos se você parar e prestar atenção. Aquele som manjado de bateria eletrônica, um lick de blues mais tocado que a introdução de "Starway to Heaven", uma cadência de acordes que você já ouviu 250 vezes em outras músicas. Fuja disso. Afaste-se o máximo que puder. Procure o que realmente é novo, diferente. Uma fórmula de compasso não típica para aquele estilo de música, uma nova mistura de estilos, um som de guitarra inovador e até meio esquisito. 

 

Depois procure analisar sua coleta de dados. Use-a para se inspirar, não para mera cópia. Você pode ter um atalho, um coringa em sua manga. Vá pelo lado oposto de tudo o que achou. Tudo o que você está escutando está mergulhado em reverb? Não coloque nada de reverb em seu som. Se você achar que ficou ruim, faça qualquer coisa para apimentar o instrumento, menos colocar reverb. Ouviu de novo aquele plug-in manjadíssimo que emula amplificadores antigos? Saia fora, use um amplificador moderno, pequeno, diferente, novo. Percebeu a enxurrada de sextinas surdas e mudas no solo de guitarra? Toque uma, duas notas. Toque cada uma delas como se fosse a última nota que você vai tocar em sua existência. Dê vida para elas. Programe sua bateria eletrônica sem chimbal, ou com sons diferentes. Grave a faixa inteira sem contra-baixo. Crie suas próprias escalas (que não passam de uma mera combinação de notas) e voicings para seus acordes. 

 

Parece difícil? É mais fácil e prazeroso do que você imagina. Você, somente você vai saber o que é preciso para sua música. Deixe os outros reclamarem, criticarem. Deixe para eles a arte da imitação, abandone-os na chatice. Vá para o outro lado e descubra como sua música pode ser grande e original.

experimentando

Qualquer pessoa que estuda um instrumento, pratica algum esporte regularmente ou mexe com arte em geral tem que lidar com prática, estudo, experimentação e treino. O ser humano só aprende fazendo. Existe uma diferença gigantesca entre os projetos que você imagina ou planeja fazer e os que você realmente faz.

Todos nós sabemos disto mas vez ou outra acabamos cedendo no esforço e no binômio paciência/persistência. Uma pessoa pode ter sonhos incríveis, idéias mirabolantes, infinita inspiração e sentimentos, mas não existe criatividade que sobreviva à falta de realização. Idéias criativas precisam virar realidade. 

 

Muitas escolas de música e conservatórios mais tradicionais simplesmente reduzem esta necessidade em uma frase que pode evocar as mais diferentes emoções e sentimentos entre os estudantes de música: "a prática faz a perfeição". Esta simples frase acaba por carregar consigo uma série de problemas subliminares que podem reduzir gradativamente o potencial criativo de uma pessoa. 

 

Nós temos a tendência de pensar em prática e estudo como "algo" que irá nos preparar para a situação "real". Quantas pessoas você não conhece que dizem que, quando sozinhas em casa, tocando um instrumento, conseguem passar muita emoção, técnica e expressividade, mas ao pisar em um palco ou ver a famosa (e cada vez mais imaginária) luz vermelha do "gravando", tremem pelo corpo inteiro, e não conseguem se concentrar nem interagir com a emoção de tocar um instrumento. 

 

Isso sempre vai acontecer enquanto nós insistirmos em separar a prática da "realidade". Toda vez que quebramos estes dois lados em "coisas" diferentes, dificilmente conseguimos expressar nossa verdadeira musicalidade. Por insistir em algo assim, muitas escolas e conservatórios fazem crianças e adolescentes odiarem tocar um piano ou violão, pois estes lugares passam e repassam chatíssimos exercícios, provas ultrapassadas e conceitos arcaicos sobre música e arte. Precisamos fugir desta arapuca. 

 

A parte mais frustante e agonizante de um trabalho criativo que devemos diariamente enfrentar em nossa sessão de estudos é o "buraco" entre o que sentimos e o que realmente conseguimos expressar por meio da guitarra. Você sabe o que está faltando, e muitas vezes sabe o que é preciso ser feito para compensar esta falta. A técnica muitas vezes é utilizada para suprir este buraco, esta falta de algo, mas acaba muitas vezes por esconder, encobrir realmente o que é necessário ser feito. Quando nós percebemos ou sentimos técnica como "algo" que precisa ser praticado, pura e simplesmente, caímos no erro de percepção entre prática e realidade.

E, novamente, entramos num círculo vicioso. 

 

È óbvio que para improvisar e expressar-se em um instrumento (assim como qualquer outro tipo de arte, como literatura ou pintura, por exemplo) é necessário uma grande quantidade de técnica, sólida e concreta. Mas quando essa fica muito sólida, nós ficamos tão acostumados e "viciados" em enfrentar certas passagens e situações que acabamos nos distanciando, ficando quilômetros longe da criatividade. Acabamos soando "robotizados", mesmo quando damos aquele bend ou aquele vibrato tão "animal", perfeito e já "sacado" por todo mundo. Esse é o perigo da parte rígida e um pouco entediante da competência que adquirimos com a prática constante. 

 

A idéia ocidental da prática é adquirir habilidade. Habilidades para tocar mais rápido, pintar um quadro com mais cores, escrever mais idéias rapidamente. Habilidades que são enraizadas em nossa vida desde muito cedo. Aprendemos que quanto mais produzirmos, quanto mais trabalho tivermos, melhor. Seria bom conhecermos também um pouco sobre a idéia oriental de prática. No Oriente, a prática é voltada para criar a pessoa, para subsidiá-la em uma vivência mais rica e completa. Na filosofia Zen, praticar é andar, comer, varrer o chão e tocar guitarra. 

 

Acabe com a diferença entre exercício e música de verdade. Prática e estudo não são apenas artefatos necessários para fazer arte. São arte também.

Lembre-se disso na próxima vez que for estudar guitarra.